Decidindo o futuro do caqui

A produção, a diversidade de variedades e o consumo do caqui cresceram muito nos últimos anos. A safra 2015/2016 foi difícil para produtores e comerciantes de caqui.

O encontro, realizado no dia 26 de julho de 2016, no Auditório Nelson Loda da CEAGESP, contou com representantes de produtores das principais regiões produtoras, atacadistas e técnicos que trabalham com caqui (Anexo 04). Os objetivos do encontro foram caracterizar a situação atual e definir estratégias para um futuro melhor. A crise é o momento ideal para a definição dos nossos principais problemas e desafios e o estabelecimento de estratégias de melhoria da nossa competitividade e sustentabilidade, o momento ideal para a construção de um futuro melhor para o caqui.

As conclusões e propostas para um futuro melhor serão divulgadas e encaminhadas pelos participantes do encontro aos órgãos privados e públicos que podem colaborar conosco, na solução e prevenção dos problemas e desafios levantados.

Cada participante recebeu, junto com o convite (Anexo 01), um roteiro de questões para tornar o debate mais objetivo e concreto (Anexo 02).

Os técnicos do Centro de Qualidade, Pesquisa e Desenvolvimento da CEAGESP, como subsídio para o Encontro, trabalharam os dados de caqui do SIEM – Sistema de Informação e Estatística de Mercado da CEAGESP, entrevistaram os principais atacadistas de caqui e avaliaram em laboratório características físico-químicas de frutos coletados no mercado.

1º Dados do SIEM
Os dados do SIEM de 2015 e 2016, de janeiro a junho, mostram que:
• O volume total de caqui, entre janeiro e junho, caiu 12%, quando comparamos 2016 a 2015 - de 28 para 25 mil toneladas.
• O volume da variedade Rama Forte caiu 22% no mesmo período e foi responsável por 63% do caqui em 2015 e por 58% em 2011.
• O volume da variedade Guiombo cresceu 10% e foi responsável por 27% do volume do caqui em 2015 e por 34% em 2016.
• O volume da variedade Fuyu caiu 53% e foi responsável por 8% do volume em 2015 e por 6% em 2016.
• O volume da variedade Kyoto caiu 15% e sua participação se manteve em 1%.
• O volume da variedade Taubaté caiu 47% e foi responsável por 0,1% do volume em 2015 e praticamente desapareceu em 2016.
• O volume do caqui importado cresceu 47% foi de 163 toneladas para 250 toneladas, no período do ano de maior oferta do caqui brasileiro.
• Sete estados brasileiros comercializam sua produção no ceasa paulistano, que recebe também caqui importado da Espanha. São Paulo foi o maior fornecedor em 2016 com 81% do volume, seguido por Minas Gerais (7%), Rio Grande do Sul (7%), Paraná (3%), Goiás, Santa Catarina e Pernambuco, com menos de 0,1% cada um. O caqui importado já responde por 2% do volume total.
• Oitenta municípios em 2015 e noventa e dois em 2016 enviaram caqui para o ceasa paulistano. Os municípios responsáveis por 50% do volume em 2015 foram Pilar do Sul, Guararema, Mogi das Cruzes, Taquiravaí, São Miguel Arcanjo e Santa Isabel e em 2016 foram Guararema, São Miguel Arcanjo, Pilar do Sul, Mogi das Cruzes, Taquarivaí e Turvolândia-MG.
• Cento e quarenta cinco atacadistas comercializaram caqui no ceasa paulistano em 2015 e 132 em 2016.

2º Entrevista dos atacadistas

O estudo levantou a percepção dos principais atacadistas comerciantes de caqui, para compreender a dinâmica de comercialização do caqui e os seus principais problemas e desafios. Foram entrevistados os vinte maiores comerciantes, responsáveis por 69% do volume comercializado no ETSP da CEAGESP, entre março e junho de 2016.
Aqui estão alguns resultados:
• O número de variedades diminuiu, com o quase desparecimento de oferta do caqui Taubaté, por sua pequena durabilidade na comercialização e aparecimento de manchas e estrias na pós-colheita.
• As variedades de maior volume, em ordem decrescente, são Rama Forte, Guiombo, Fuyu e Kyoto e a ordem continuará a mesma nos próximos cinco anos. A oferto da variedade Tokyogoshi vai crescer.
• A variedade Rama Forte é a de maior volume com 61% de participação, seguida pela variedade Guiombo com 24% da participação com perspectiva de diminuição, em razão da ocorrência da antracnose. A variedade Fuyu com 14% é seguida pela variedade Kyoto com 8% de participação.
• A textura é a característica mais utilizada para a descrição e diferenciação das variedades. A variedade Rama Forte é descrita como de textura mole e preço mais acessível. A variedade Guiombo é descrita como de textura crocante e polpa achocolatada, a variedade Fuyu como de textura crocante e sabor doce e a Kyoto como de textura crocante, sabor doce e polpa achocolatada.
• A embalagem de papelão é a mais utilizada (85%), seguida pela madeira (14%) e pelo plástico (0,30%).
• A oferta de Rama Forte está concentrada (93%) nos meses de fevereiro a maio, sendo março e abril os meses de maior volume com 61% do volume total, com pico em abril (36%).
• A oferta de Guiombo está concentrada nos meses de março a junho (91%), sendo abril o seu mês de maior oferta (31%).
• A oferta de Fuyu está concentrada nos meses de março a junho (88%), com pico de oferta em maio (32%).
• A oferta de Kyoto está concentrada nos meses de abril a julho (81%), com pico em abril (30%).
• Os três principais problemas citados para as variedades taninosas (Rama Forte e Guiombo) foram amolecimento, destanização e antracnose.
• Os três principais problemas citados para as variedades não taninosas (Fuyu e Kyoto) foram amolecimento, cochonilha e antracnose.
• A antracnose, doença fúngica, que pode levar à perda de folhas e frutos, e o amolecimento foram citados entre os três problemas de maior importância para todas as variedades de caqui.
• O sistema de destanização mais utilizado, segundo os entrevistados, foi a aplicação de etileno para o Rama Forte e álcool para o Guiombo.
• O tanino, presente nas variedades adstringentes (Rama Forte e Guiombo), devido à destanização inadequada, foi o maior problema apontado pelos entrevistados – o 1º no Rama Forte e o 2º maior defeito no Guiombo.
• O amolecimento do caqui Fuyu refrigerado, imediatamente após a quebra da cadeia de frio, inviabiliza a sua comercialização. Alguns produtores do sul do Brasil, colhem o caqui antes do ponto correto de maturação e o conservam em baixas temperaturas, uma tecnologia que precisar ser reavaliada
• O maior defeito no Guiombo, no Fuyu e o 2º maior defeito no Rama Forte e no Kyoto foi a colheita antes da hora, do fruto imaturo, que impede que o fruto alcance a sua melhor coloração e sabor.
• Outros defeitos citados foram manchado, estrias, dano superficial cicatrizado, amassado, fenda de base.
• A alta perecibilidade do caqui Rama Forte foi citada em 50 % das respostas, que o definem como ‘muito perecível, rápida maturação, rapidez na venda e rápido amolecimento’.
• A fenda de base e a colheita de frutos imaturos foram os problemas mais citados para o Fuyu.
• A ocorrência de antracnose e da cochonilha foi citada como problema importante na produção.

3º Análises laboratoriais

As avaliações foram feitas no laboratório do Centro de Qualidade, Pesquisa e Desenvolvimento da CEAGESP, com as variedades Rama Forte e Guiombo.
A adstringência, resultado da presença do tanino solúvel no fruto, é alta. A análise enquadrou os frutos em cinco categorias de adstringência: não adstringente, moderadamente não adstringente, moderadamente adstringente, adstringente e altamente adstringente. Elas mostraram que:
• Somente 23% dos frutos de Rama Forte foram avaliados como não adstringentes e 51% como adstringente e altamente adstringente
• Nenhum dos frutos de Guiombo foi avaliado como não adstringente e 95% foram caracterizados como adstringente e altamente adstringente
• As análises laboratoriais corroboraram com vigor os resultados das entrevistas com os comerciantes de caqui da CEAGESP – a destanização inadequada é um grande problema.

Os sólidos solúveis são compostos por açúcar, sais, proteínas, ácidos e outros compostos como os taninos. O fruto colhido imaturo não acumulou ainda os compostos responsáveis pelo seu aroma e sabor e não fica mais doce depois de colhido. Os caquis taninosos perdem conteúdo de sólidos solúveis com a destanização, que torna o tanino insolúvel.
A medida do conteúdo de sólidos solúveis mostrou que:
• A maior parte dos frutos tinha mais que 15º Brix – 92% no Rama Forte e 65% no Guiombo.
• No Rama Forte 34% dos produtos tinham mais que 18º Brix e no Guiombo somente 13%.

Precisamos ainda relacionar as características físico-químicas de cada variedade de caqui com a percepção do sabor dos consumidores, para definir o padrão mínimo de conteúdo de sólidos solúveis que garanta prazer no consumo do caqui.

CONSTATAÇÕES DO ENCONTRO

Os estudos feitos pelos técnicos da CEAGESP foram apresentados no encontro e os produtores de diferentes regiões, técnicos e pesquisadores fizeram os seus depoimentos e debateram os principais desafios da produção e comercialização de caqui.

Aqui estão alguns dos resultados:
• As doenças mais citadas são antracnose e cercosporiose. A identificação da doença é feita pelo produtor. A possibilidade de utilização de clínicas fitopatológicas para a identificação correta da doença não é sequer considerada pelos produtores. Alguns dos técnicos presentes ressaltaram a grande semelhança visual entre algumas doenças, o que deve estar levando ao diagnóstico e controle incorretos. Uma lista das clínicas fitopatológicas em funcionamento no Estado de São Paulo está disponível no Anexo 03.
• A antracnose no caqui Guiombo é impossível de controlar e está levando à erradicação das lavouras de Guiombo e ao receio de que a doença se espalhe pelos pomares das outras variedades. A percepção dos participantes é que o caqui Guiombo será extinto pela doença.
• O amolecimento é um problema grave e as suas causas precisam ser melhor definidas, para que ele possa ser prevenido. Entre as possíveis causas foram citadas: temperatura alta na colheita, manejo da refrigeração, quebra da cadeia de frio, deficiências nutricionais.
• Outros problemas graves ainda precisam ter as suas causas e maneiras de prevenção bem definidas como a queda prematura do fruto e da flor, o descolamento do cálice, a rachadura, a espuma. Um levantamento comparando produtores com e sem o problema na mesma região e época, seria o primeiro passo.
• O manejo incorreto de alguns produtores inviabiliza a produção e o manejo correto dos seus vizinhos. As pragas e doenças passam de um pomar para o pomar do vizinho.
• As consequências da aplicação de tecnologias para produção fora de época precisam ser melhor compreendidas e avaliadas. Está crescendo a produção de caqui em regiões mais quentes, o que permite a sua oferta no segundo semestre.
• O desequilíbrio nutricional pode ser uma das causas de alguns problemas. Não existe parâmetro de análise foliar para o caqui.
• Não existe tecnologia adequada de conservação e a quebra da cadeia do frio amolece o fruto rapidamente.
• A destanização está mal resolvida. Ela precisaria ser feita de acordo com o mercado de destino. A infraestrutura de destanização na produção é precária.
• A carência de defensivos registrados para o caqui, faz com que os produtores utilizem defensivos sem registro para a cultura.
• Existem soluções agronômicas que viabilizam a Produção Integrada do Caqui e que não são adotadas pelos produtores. Existem ótimos técnicos na SAA, especializados em caqui, detentores dos conhecimentos necessários para o treinamento dos produtores e dos técnicos que os assessoram.
• Os assessores agronômicos dos produtores encontram dificuldades em fazer com que os produtores adotem as técnicas mais corretas.

 PROPOSTAS DO ENCONTRO

• Avaliação fitopatológica da doença diagnosticada como antracnose que está inviabilizando o cultivo do Guiombo: caracterização, distribuição, origem, disseminação, perspectivas, prevenção e controle
• Avaliação fitopatológica da doença diagnosticada como cercosporiose pelos produtores
• Divulgação das clínicas fitopatológicas entre os produtores e técnicos e dos benefícios da sua utilização
• Elaboração de um manual técnico de Boas Práticas Agrícolas do Caqui, com base no conhecimento existente e com ênfase na prevenção de problemas
• Criação de uma Política de Defesa Sanitária Vegetal para o Caqui, que garanta a prevenção de problemas e a saúde do caqui
• Criação ou adequação de programa de financiamento da FEAP para a melhoria das câmaras de destanização, cque inclua a obrigatoriedade de treinamento e de adoção de Boas Práticas Agrícolas
• Solicitação à FAPESP do financiamento, dentro do Programa de Políticas Públicas, de pesquisas que tragam solução para os problemas como amolecimento, queda prematura de frutos e flores, descolamento do cálice, rachadura, refrigeração, conservação pós-colheita, avaliação nutricional, destanização.
• Divulgação da necessidade de pesquisa junto às universidades e instituições de pesquisa
• Treinamento dos técnicos do governo e do setor privado na adoção de Boas Práticas Agrícolas e na prevenção de problemas
• Parceria com os bancos na exigência de adoção de Boas Práticas Agrícolas para a concessão de financiamentos
• Criação de um cadastro de produtores de caqui treinados e sua divulgação pela internet, para que os compradores – atacadistas e varejistas - deem preferência aos produtores treinados e que recebem assistência de técnicos treinados.
• Criação de um arcabouço legal que permita a organização do Comitê de Promoção e Desenvolvimento do Caqui e de outros produtos agrícolas, como acontece em muitos países desenvolvido como os EUA, o Canadá, a Austrália, a Nova Zelândia. O comitê permitirá que o segmento da produção agrícola assuma a coordenação de cada cadeia de produção hortícola: orientando a pesquisa para a direção correta, indicando a orientação correta das ações de Defesa Agropecuária, estabelecendo as ações de marketing (em seu sentido mais amplo de preparação de um produto para o mercado, incluindo o estabelecimento de normas e padrões em toda a cadeia, a propaganda e a orientação ao consumidor).

Texto elaborado pelo Centro de Qualidade, Pesquisa e Desenvolvimento da CEAGESP e encaminhado para avaliação aos participantes do encontro em 3 de novembro de 2016.