A enorme polêmica sobre a oferta de farinata na alimentação escolar do município de São Paulo trouxe à tona assuntos pouco debatidos como a alimentação escolar e o nutricionismo.

A  proposta do prefeito em seu programa 'Alimento Para Todos', lançado no último dia 6 de outubro, foi servir à população carente, um suplemento alimentar. Alimentos próximos do vencimento seriam desidratados por liofilização e transformadas em alimentos completos, com proteínas, vitaminas e sais minerais e oferecidos na forma de biscoitos, com um sabor semelhante ao biscoito de polvilho.  A proposta sofreu muitas críticas de nutricionistas e outros profissionais de alimentação.

Afinal comemos nutrientes ou alimentos?

O investimento no conhecimento da composição de alimentos cresceu muito na 1ª Guerra Mundial. Os alimentos foram reduzidos aos seus nutrientes e o conteúdo em nutrientes utilizado como propaganda pela indústria de alimentos. Nasceu o nutricionismo, os aditivos alimentares, os alimentos fortificados.

Algumas constatações podem ajudar no debate:

1. O conhecimento atual da composição dos alimetnos não é suficiente para explicar o efeito do alimento em nosso organismo.

2. As mudanças  do que é bom e do que é ruim para a saúde são frequentes e mostram bem as divergências entre os cientistas e deixam as pessoas inseguras. O ovo e a manteiga são bons exemplos.

2. As pessoas escolhem o alimento mais saboroso e se sentem culpadas. A refeição deveria ser um momento de prazer, de congraçamento.

3. A obesidade é um grande problema no Brasil, inclusive a infantil. Uma parte grande dos problemas de sáude pode ser prevenida por uma boa alimentação.

4. A refeição doméstica está cada vez mais pobre em diversidade. A maioria das mulheres também trabalham fora de casa, gastam muito tempo no trânsito, tem pouco tempo para  o convívio com as crianças e para o preparo das refeições. (Nas classes de renda mais alta, a minoria da população, a gastronomia é cada vez mais importante)

5. A melhoria da renda não leva à melhoria das refeições, mas à compra de mais produtos industrilizados, prontos para o consumo6. 

6. O consumo constante de alimentos fortificados diminui a nossa capacidade de absorção dos nutrientes do alimento.

7. A escola é cada vez mais importante na formação do consumidor, que determinará o futuro da nossa agricultura.

8. A humanidade sempre soube comer. Os arqueólogos estão descobrindo que hoje existem mais problemas de desnutrição que no tempo das cavernas.

O Programa Nacional de Alimentação Escolar do Brasil, também conhecido como Merenda Escolar, é um dos maiores programas sociais do mundo, atendendo 47 milhões de crianças. Ele oferece alimentação escolar e educação alimentar e nutricional a estudantes de todas as etapas da educação básica pública. Ele é acompanhado e fiscalizado diretamente pela sociedade, por meio dos Conselhos de Alimentação Escolar, sendo o resultado dos esforços e recursos dos governos federal, estadual e municipal.

A educação alimentar dá à criança  a oportunidade de escolher e saborear a imensa variedade de alimentos frescos, se aproximar da agricultura, sentindo-se parte do caminho do alimento que chega a sua mesa. A  refeição deve ser tratada como fonte de sustento, prazer, convívio, pertencimento.

A Alimentação Escolar do município de São Paulo é considerada uma das melhores do Brasil. São servidas mais de 2 milhões de refeições diárias. É possível até consultar o cardápio servido nas escolas no site da prefeitura. 

Anita de Souza Dias Gutierrez

Outubro de 2017