A legislação brasileira considera como produto orgânico, seja ele in natura ou processado, aquele que é obtido em um sistema orgânico de produção agropecuária ou oriundo de processo extrativista sustentável e não prejudicial ao ecossistema local. Os produtos, para serem comercializados como orgânicos, deverão ser certificados por organismos credenciados no Ministério da Agricultura.

São dispensados da certificação somente os produzidos por agricultores familiares que fazem parte de organizações de controle social cadastradas no MAPA e que comercializam exclusivamente em venda direta aos consumidores.

Os resultados preliminares, aqui apresentados, são o resultado de:

  • O levantamento das frutas e hortaliças orgânicas comercializadas no ETSP da CEAGESP, a partir do banco de dados SIEM - Sistema de Informação e Estatísticas de Mercado
  • A análise das notas fiscais dos produtos orgânicos coletadas na portaria do Entreposto de São Paulo
  • Entrevistas dos permissionários responsáveis pela comercialização de orgânicos no ETSP
  • A análise das principais características físico-químicas do produto orgânico.
  1. SIEM

O Sistema de Estatística e Informação de Mercado (SIEM) é alimentado com os dados das notas fiscais, retidas na portaria do ETSP e registradas pela SEDES – Seção de Economia e Desenvolvimento da CEAGESP. As notas são separadas e codificadas diariamente, destacando os permissionários destino do produto, as origens e os volumes de cada produto.

Os dados de entrada mostram crescimento do produto orgânico no Ceasa paulistano – de 69%, entre 2013 a 2014 e 49% entre 2014 e 2015 e de 256 entre 2013 e 2016. A proporção dos produtos orgânicos no total de produtos comercializados no ETSP é ainda inferior a 1%: 0,05% em 2013, 0,14% em 2016.

Os principais produtos orgânicos comercializados no ETSP, em 2016, foram em ordem de volume: tomate, laranja, abacate, maçã, limão, abobrinha, manga, batata, cebola e melancia. No grupo das verduras folhosas, com menor participação, encontramos: couve, acelga e espinafre.

A diferença de preços entre o produto orgânico e o convencional foi avaliada, a partir dos dados da Cotação de Preços da CEAGESP. A diferença encontrada foi maior que 100% em alguns produtos como tomate Italiano e cebola Baia, próxima de 50% em abóbora Goianinha e laranja Pera e menor que 20% em manga Tommy e banana Prata.

  1. Análise das notas fiscais

Foram coletadas notas fiscais de produtos orgânicos, entre 16 a 30 de novembro de 2016. Foram analisados a descrição da variedade, a classificação, o fornecimento da placa do veículo, a identificação do transportador, o tipo de transação do produto e a existência de cadastro no MAPA através do CNPJ/CPF lançado na nota fiscal. Os dados foram inseridos em planilha eletrônica para as análises quantitativas.

Foram coletadas e analisadas 47 notas fiscais dos alimentos orgânicos, de 34 produtores diferentes, totalizando 109 produtos. A manga foi o produto de maior volume, com 22.480 kg em quinze dias.

A qualidade de preenchimento da nota fiscal deixou muito a desejar. 38% sem a descrição da variedade, 98 % sem a classificação e 83% sem a placa do veículo transportador e 96% e 96% das notas fiscais sem os dados do transportador.

 

  1. Entrevista de comerciante, permissionário da CEAGESP

Os principais compradores de orgânicos são os feirantes, com 50% das vendas e os supermercados são o segundo maior comprador com 35% das vendas. O varejo especializado (sacolões e hortifrútis) são 10% do mercado e os restaurantes 5%.

Os produtos orgânicos não são comercializados por classificação. Todos os fornecedores estão inscritos no cadastro nacional de produtores orgânicos. O selo de orgânicos (SiOrg) é colocado no mercado no momento do embalamento. O produto é recebido da produção em caixas plásticas.

A análise de resíduo de agrotóxicos é feita sempre que solicitada pelo cliente, o que acontece com pouca frequência. Dois laudos do Instituto Biológico foram apresentados: abacaxi e tomate.

No caso de maturação avançada os produtos não são descartados, mas encaminhados para a produção de desidratados, polpas.

Os produtos orgânicos são considerados mais perecíveis que os convencionais.

  1. Análise físico-química dos alimentos orgânicos

Foram coletadas três amostras dos produtos banana Prata, laranja Pêra, tomate Italiano e cebola Baia e duas amostras dos produtos manga Tommy e abóbora Goianinha. As amostras foram levadas ao laboratório do Centro de Qualidade, Pesquisa e Desenvolvimento da CEAGESP, onde foram realizadas as análises físico-químicas.

Foram avaliados: a massa fresca dos produtos em gramas, o conteúdo de sólidos solúveis, em graus Brix, o pH, a acidez titulável. Foi também avaliado o índice de Aproveitamento, que mede a proporção do fruto que é aproveitado para o consumo. O Índice de Aproveitamento do tomate e da banana orgânicos foi muito similar ao da produção convencional. Já a laranja, a manga e a cebola orgânicas tiveram um Índice de Aproveitamento superior ao da produção convencional. A razão pode estar no ponto de colheita mais maduro da laranja orgânica.

A perda de massa fresca foi medida durante 9 dias. A cebola Baia teve a menor perda de água- 1,65 %. A abóbora Goianinha teve uma perda de massa de 3,71 %, a laranja Pêra de 13,80%, a manga Tommy de 7,14%, o tomate Italiano de 4,33%.

 O conteúdo de sólidos solúveis dos alimentos orgânicos foi comparado aos dados de análise de produtos convencionais. Todos os produtos orgânicos analisados, com exceção da manga, apresentaram um teor de sólidos solúveis mais elevado que a média dos produtos convencionais, o que pode indicar maior cuidado na escolha do ponto de colheita.

A medida do pH - potencial hidrogeniônico, que indica o grau de acidez, apresentou diferenças entre o orgânico e convencional, com exceção do tomate.

A acidez titulável, parâmetro quantitativo também utilizado para determinar a acidez de cada alimento, mostrou um produto orgânico menos ácido que o convencional.

O ratio, medida do sabor, que combina ‘doçura’ e a acidez, foi mais baixo na manga orgânica e mais alto na cebola orgânica, apresentando resultados semelhantes nos outros produtos.  

O estudo foi feito durante um curto período de tempo, com poucas amostras. Ele deverá ser repetido com maior quantidade de produtos de diferentes origens e em diferentes épocas, tanto com orgânicos como com convencionais. Ele mostra a riqueza de informações que podem ser levantadas no Ceasa paulistano.

 

Trabalho realizado pelas estudantes de nutrição, estagiárias do Centro de Qualidade, Pesquisa e Desenvolvimento da CEAGESP, Heloisa Lourenço e Universidade Anhembi Morumbi e Jaqueline Quaresma da Universidade Nove de Julho e coordenado por Thiago Oliveira e Sabrina Leite de Oliveira, técnicos da CEAGESP.