INTRODUÇÃO

As características e a complexidade da cadeia de produção dos produtos hortícolas frescos (frutas, hortaliças, flores e plantas ornamentais) exigem um tratamento diferenciado. Aqui estão algumas das razões:
A produção de produtos hortícolas frescos é caracterizada pela fragmentação de produção e de origem: milhares de produtores, áreas pequenas, diferentes regiões produtoras com diferentes épocas de colheita.
O produto hortícola fresco não sofre nenhum processo de transformação depois da colheita.
Na cadeia de produção de hortícolas frescos não existe um elo organizador.
No caso dos produtos agrícolas industrializados, o agricultor é fornecedor de matéria-prima e a indústria estabelece os padrões para essa matéria-prima, os volumes de compra e a época do fornecimento; a indústria desenvolve novos produtos, novas embalagens, estuda o mercado consumidor, faz propaganda dentro e fora dos estabelecimentos comerciais, tem sistema de venda e distribuição, SAC, SOC, assessora o comprador e assim por diante, ou seja, a indústria coordena a cadeia, o que de nenhum modo ocorre no caso dos hortícolas frescos, em que ninguém coordena a cadeia.
A comercialização é extremamente complicada e geradora de grandes conflitos e insatisfações. Existe grande fragilidade comercial do produtor: inadimplência, ausência de diferenciação de valor por qualidade.
O produtor não consegue manter a sua identidade, construir a sua marca.
Raramente o produtor é recompensado pelo seu esforço de modernização e de melhoria do seu produto.
É impossível para o produtor individual desenvolver ações de marketing, no seu sentido mais amplo, e de melhoria de tecnologia para o seu produto.
A perecibilidade do produto, a colheita trabalhosa e prolongada (que impede ou, no mínimo, atrapalha muito o adequado acompanhamento do processo de comercialização pelo produtor isolado) e a inexistência ou precariedade da cadeia de frio tornam o produtor extremamente frágil em suas relações comerciais.
A concentração do varejo e dos serviços de alimentação em grandes redes e a enorme força do atacado, aliados ao atual forte processo de redução de custos, automação e corte de pessoal, criam uma pressão enorme sobre o produtor.
A característica mais importante e comum a todos os elos da cadeia de produtos hortícolas frescos é a falta de confiança. O produtor não confia no atacadista, que não confia no produtor. O varejista não confia no atacadista e o consumidor não confia no produto.
A adoção de uma linguagem comum de qualidade (as normas de classificação) é passo imprescindível para a transparência e confiabilidade na comercialização.
A transparência na comercialização não interessa aos compradores do grande varejo e aos atacadistas: significa perda de poder. A falta de transparência possibilita o repasse da ineficiência, dos erros de pedido, das perdas no transporte e na gôndola, da troca de embalagem, das más condições de armazenamento. O produtor paga por toda a ineficiência do sistema.
Os programas de apoio à exportação são desligados da realidade global da cadeia de produção: procura-se incentivar produção específica para exportação, o que obriga os produtores a custos elevados sem remuneração compatível ou os leva a repetidos fracassos nos mercados externos. O sistema produtivo de hortícolas no Brasil é muito diferente dos sistemas de produção voltados exclusivamente à exportação existentes para frutas, no Chile, e para flores de corte, na Colômbia e no Equador, em que há rígida coordenação por grandes atacadistas internacionais e não há mercado interno, e as tentativas de imitar esses sistemas, como o governo brasileiro tem feito, não têm qualquer chance de sucesso continuado.
A pesquisa agronômica é muito desatrelada do espírito de cadeia; ela, em geral, atende às necessidades isoladas de um elo, sem estar atenta às consequências que a nova tecnologia provoca nos demais. Exemplos emblemáticos: o tomate Longa Vida proporciona longa vida de prateleira, atende bem ao elo do varejo, mas tem péssimas características de sabor; o pêssego Douradão tem ótimo sabor, cor e aroma, mas tem em seu formato um calombo frágil, o que causa enormes perdas no transporte; o morango Toyonoka tem ótimas qualidades organolépticas, mas é de difícil produção agrícola; a manga Tommy Atkins é de fácil produção agrícola, mas é crescentemente rejeitada pelo comércio, especialmente pelos importadores europeus.
É impossível para o produtor individual desenvolver ações de marketing, no seu sentido mais amplo, e de melhoria de tecnologia para o seu produto.
A maioria dos países desenvolvidos implantou uma política pública especial para a cadeia de produção e de comercialização de frutas e hortaliças frescas. O brasileiro é empreendedor, o nosso comércio interno é grande e está crescendo, o país é muito grande com vastas extensões que permitem o cultivo de frutas e hortaliças, não temos tido grande sucesso com o associativismo e o cooperativismo na agricultura. A nossa condição é muito semelhante a dos Estados Unidos da América, de quem podemos adaptar a nossa solução.

PROPOSTA DE TRABALHO
É preciso desenvolver ferramentas de comércio justo (1º), de preparação do horticultor (produtor de hortaliças, frutas, flores e plantas ornamentais) para o mercado moderno (2º a 5º), de garantia do abastecimento urbano com produtos hortícolas frescos (6º) e de sucesso na exportação (7º).
1º Criando instrumentos de garantia de comércio justo dos produtos hortícolas frescos, setor caracterizado por sua extrema fragilidade:
Estabelecendo um sistema de comércio justo com regras comerciais específicas para o setor (semelhante ao PACA - Perishable Agricultural Commodities Act e ao Fair Trade Guidelines, nos EUA).
Estabelecendo um sistema de arbitragem comercial.
Articulando com todos os elos da cadeia de produção a adoção das normas de classificação e outras medidas de ajuste interno. A adoção das normas de classificação só será obrigatória para os agentes que quiserem se beneficiar do Código Comercial.
Transformando as centrais de abastecimento em polos de comércio justo e de transparência na comercialização.

2º Organização dos produtores e seus primeiros compradores em Comitês de Promoção por Produto.
Esses Comitês podem e devem proporcionar ao segmento da produção agrícola a assunção da coordenação de cada cadeia de produção hortícola: orientar a pesquisa para a direção correta, indicar a orientação correta das ações de Defesa Agropecuária, estabelecer as ações de marketing (em seu sentido mais amplo de preparação de um produto para o mercado, incluindo o estabelecimento de normas e padrões em toda a cadeia, a propaganda e a orientação ao consumidor.

3º Implantação de um sistema de informação de mercado e de tecnologias disponíveis, bases para as tomadas de decisão do produtor e de toda a cadeia de produção. Transformando as centrais de abastecimento em polos de informação, necessárias à tomada de decisão dos agentes de produção e de comercialização.

4º Adoção de padrões de qualidade (normas de classificação). A adoção só será obrigatória para os produtores que quiserem ter acesso aos benefícios do Código Comercial.

5º Viabilização de barracões de classificação e comercialização nas regiões produtoras.
Os barracões de classificação e comercialização são imprescindíveis para juntar a produção do grande número de produtores de cada região, classificá-las dentro de um mesmo padrão de qualidade, submetê-las a um mesmo controle de qualidade e enviar cada lote para o seu melhor nicho de mercado. Eles permitirão a criação de volumes expressivos de produtos cuja melhor destinação seria a industria, e, desse modo, pequenas agroindústrias surgirão nas regiões produtoras.
Dentro de sua estrutura, eles deverão ter um Núcleo de Apoio ao Produtor – que possibilitará o seu acesso às informações de mercado, ao cadastro de compradores, ao cadastro de fornecedores e aos treinamentos em classificação, embalamento, pós-colheita, comercialização. Os barracões poderão ser operados pelos produtores ou por prestadores de serviços ou, ainda, por um integrador. Esses barracões devem ser credenciados no MAPA e seu funcionamento deve ser periodicamente monitorado para garantia de funcionamento compatível com as necessidades de toda a cadeia. O importante é que as regras comerciais sejam muito claras e que haja instrumentos efetivos que garantam que elas sejam obedecidas.
O Núcleo de Apoio ao Produtor, em cada barracão, poderá ser gerenciado e provido de informações pelas centrais de abastecimento, que deverão oferecer também um serviço de monitoramento da competitividade do produto para o produtor do Barracão de Classificação no mercado.

6º A garantia do abastecimento urbano com produtos hortícolas frescos exige a transformação das centrais de abastecimento em centros eficientes de consolidação e distribuição dos produtos e em centros de informação, desenvolvimento, capacitação, controle de qualidade e de apoio ao pequeno produtor, ao pequeno varejo e ao pequeno serviço de alimentação, com isso eliminando ou diminuindo as atuais distorções em favor dos grandes e favorecendo a concorrência leal.
O fortalecimento do pequeno produtor, do pequeno varejo e do pequeno serviço de alimentação depende da existência de um centro logístico de recebimento, consolidação e distribuição eficiente, com regras de comércio justas e transparentes, um sistema de informação que apoie as tomadas de decisão ao longo da cadeia e um sistema de controle de qualidade que garanta a segurança e a qualidade do alimento. As ceasas podem alavancar a modernização e a competitividade pelo “bolso”. A perspectiva de lucro, de melhoria de vida, é o melhor impulso de mudança. Em resumo, a ceasa é, e se não é deveria ser, o "umbigo do mundo" hortícola, o lugar por onde tudo passa e onde tudo acontece.

7º O sucesso na exportação será consequência do sucesso da organização da cadeia: será fácil encontrar, a custos realistas e competitivos, produtos com qualidade para exportação em uma cadeia adequadamente coordenada.

Publicado: 18 Setembro 2014